Nunca te falei de mim,
das neuroses e desatinos,
na solidão sem fim,
de um espírito clandestino.
Nunca te falei de mim,
no único mal que me faço,
quando se levanta um motim,
numa figura num espelho baço.
Nunca te falei dos desatinos,
do corpo cruel preso à alma,
das raivas, cóleras e declinos,
de tudo o que acaba com calma.
Nunca te falei das neuroses,
do receio de desencontrar-me,
das palavras em metamorfoses,
no tempo desencontrando-me.
Nunca te falei da minha solidão,
dias que não perdoam o abandono,
vazios que desgastam o coração,
porque de nada sou pose nem dono.
Nunca te falei da minha dor,
na ingenuidade de novo cair,
em rosas que nunca deram em flor,
em razões que não sabem conduzir.
Nunca te falei, minha amiga das,
Palavras, actos e omissões
desencontradas no tempo
em melancólicas canções,
consumidas pelo ingénuo,
preservadas nas emoções.
Nunca te falei minha amiga,
nos anseios, sonhos e temores,
anseios maiores que fadigas
sonhos leais sem rumores
temores tenho da fé são inimigas.
Nunca te falei das minhas faltas,
falta do som que alguém nos faz,
abraços carinhos e voz pouco alta,
apenas nos dá amor e paz.
Nunca de ti falei, minha amiga,
das frequências que de ti recebo,
desta alma em mim que te intriga,
do quanto eu de ti tento e percebo.
Nunca de ti falei, minha amiga,
dos teus devaneios que não conheço,
da força que ainda tens e te abriga,
mas num breve dia sem aviso apareço.
"Pedras no caminho? Guardo-as todas e um dia construirei um castelo."
(Fernando Pessoa)


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