(Richard Bach "Fernão Capelo Gaivota")
segunda-feira, 17 de maio de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [Bis]
A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas
São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada
Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
José Afonso
(Será que sabes quem são?)
sábado, 16 de janeiro de 2010
Uma Festa de Amigos
Hum, fartei-me de dúvidas.
Há que viver na luz do infalível Sul.
Cruéis vínculos
O poder é dos servos
Homens-cães e suas míseras mulheres
que cobrem com pobres mantas os
nossos marujos
(e onde andavas tu na hora da miséria)
Mungindo os bigodes?
ou esmagando uma flor?
Estou farto de caras austeras
Olhando do alto da sua Torre de TV.
Quero rosas na latada do meu jardim. Perceberam?
irão doravante ocupar o sitio
dos estranhos abortos da lama
Os tais mutantes, adubo sangrento
para o cultivo da planta
Sabem quão pálida e lascivamente penetrante é a morte que chega a horas impróprias sem se anunciar, sem escolta,
qual conviva horripilante e amigo
que nós mesmos levássemos para a cama
onde tínhamos ombros suaves como as asas dos
corvos
Acaba o dinheiro, acaba o disfarce
Parece que este reino é de longe melhor
até que uma outra queixada revele incestos
e o perdido respeito a uma lei vegetal
Prefiro uma Festa de Amigos
à família do Gigante
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Impulso
Existe nas palavras um som,
no silêncio do tempo um dom,
na musica finos fios de um tom,
dó menor de uma pausa do bom.
E fez-se luz num copo de tormento,
uma revelação no instante momento,
turvo e conspirante movimento,
que se desfaz num perpetuo lamento.
Quem se desfez assim dessa loucura,
nos sentidos sem sentido da rotura,
numa doença insânia sem cura,
na conspiração do olhar que procura.
Existe nos olhares sentidos,
cumplicidades e ventos sentidos,
corações desfeitos e temidos,
intemporais em livros lidos.
E tudo se desfaz num copo,
sinal turvo de um horóscopo,
pó alucinante que não topo,
marés mortas que não ensopo.
E quem disse ao insano louco,
que dizer amo-te era tão pouco,
enganou-se ao dizer rouco,
as ocas palavras para um mouco.
Existem nos actos repelentes,
fugas, perseguições e correntes,
desculpas de histórias ausentes,
caminhos dúbios e diferentes.
Ousamos nos refugiar,
ser exilados sem amar,
julgamos num enganar
e num impulso abandonar.
(C.M.)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Linguagem do Coração
Não é Braille nem gravura,
escrita, pergaminho ou cifra,
língua, escrita nem escultura,
a linguagem do coração.
Louco aquele que usou
interpretar essa linguagem
decifrar o que abandonou
em sonhos feitos miragem.
Loucura cometeu ao desafiar
o invisível do coração ditar,
em versos e prosas escrevinhar,
ser criança, romântico e se dar.
Não é água, nem Deus, nem ar,
fruto, árvore, flor e nem mar,
não é sabor, cheiro ou olhar,
a linguagem do coração.
Louco fui por acreditar,
na linguagem do coração,
ninguém quis acreditar,
que aprender é uma oração.
(C.M.)


