Existe nas palavras um som,
no silêncio do tempo um dom,
na musica finos fios de um tom,
dó menor de uma pausa do bom.
E fez-se luz num copo de tormento,
uma revelação no instante momento,
turvo e conspirante movimento,
que se desfaz num perpetuo lamento.
Quem se desfez assim dessa loucura,
nos sentidos sem sentido da rotura,
numa doença insânia sem cura,
na conspiração do olhar que procura.
Existe nos olhares sentidos,
cumplicidades e ventos sentidos,
corações desfeitos e temidos,
intemporais em livros lidos.
E tudo se desfaz num copo,
sinal turvo de um horóscopo,
pó alucinante que não topo,
marés mortas que não ensopo.
E quem disse ao insano louco,
que dizer amo-te era tão pouco,
enganou-se ao dizer rouco,
as ocas palavras para um mouco.
Existem nos actos repelentes,
fugas, perseguições e correntes,
desculpas de histórias ausentes,
caminhos dúbios e diferentes.
Ousamos nos refugiar,
ser exilados sem amar,
julgamos num enganar
e num impulso abandonar.
(C.M.)


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