Há sempre uma razão para viver. Podemos elevar-nos acima da nossa ignorância, podemos olhar o nosso reflexo, como o de criaturas feitas de perfeição, inteligência e talento. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!
(Richard Bach "Fernão Capelo Gaivota")

domingo, 11 de abril de 2010

Vampiros


No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [Bis]

A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas

São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada

Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

José Afonso

(Será que sabes quem são?)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Uma Festa de Amigos

Hum, fartei-me de dúvidas.

Há que viver na luz do infalível Sul.


Cruéis vínculos

O poder é dos servos

Homens-cães e suas míseras mulheres

que cobrem com pobres mantas os

nossos marujos

(e onde andavas tu na hora da miséria)


Mungindo os bigodes?

ou esmagando uma flor?

Estou farto de caras austeras

Olhando do alto da sua Torre de TV.

Quero rosas na latada do meu jardim. Perceberam?


Régios bebés, rubis

irão doravante ocupar o sitio

dos estranhos abortos da lama

Os tais mutantes, adubo sangrento

para o cultivo da planta


Estão à espera de nos levarem prós jardins separados

Sabem quão pálida e lascivamente penetrante é a morte que chega a horas impróprias sem se anunciar, sem escolta,

qual conviva horripilante e amigo

que nós mesmos levássemos para a cama


A morte torna-nos a todos anjos e coloca-nos asas

onde tínhamos ombros suaves como as asas dos

corvos


Acaba o dinheiro, acaba o disfarce

Parece que este reino é de longe melhor

até que uma outra queixada revele incestos

e o perdido respeito a uma lei vegetal


Não eu não vou

Prefiro uma Festa de Amigos

à família do Gigante



(Jim Morrison)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Impulso


Existe nas palavras um som,

no silêncio do tempo um dom,

na musica finos fios de um tom,

dó menor de uma pausa do bom.


E fez-se luz num copo de tormento,

uma revelação no instante momento,

turvo e conspirante movimento,

que se desfaz num perpetuo lamento.


Quem se desfez assim dessa loucura,

nos sentidos sem sentido da rotura,

numa doença insânia sem cura,

na conspiração do olhar que procura.


Existe nos olhares sentidos,

cumplicidades e ventos sentidos,

corações desfeitos e temidos,

intemporais em livros lidos.


E tudo se desfaz num copo,

sinal turvo de um horóscopo,

pó alucinante que não topo,

marés mortas que não ensopo.


E quem disse ao insano louco,

que dizer amo-te era tão pouco,

enganou-se ao dizer rouco,

as ocas palavras para um mouco.


Existem nos actos repelentes,

fugas, perseguições e correntes,

desculpas de histórias ausentes,

caminhos dúbios e diferentes.


Ousamos nos refugiar,

ser exilados sem amar,

julgamos num enganar

e num impulso abandonar.

(C.M.)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Linguagem do Coração


Não é Braille nem gravura,

escrita, pergaminho ou cifra,

língua, escrita nem escultura,

a linguagem do coração.


Louco aquele que usou

interpretar essa linguagem

decifrar o que abandonou

em sonhos feitos miragem.


Loucura cometeu ao desafiar

o invisível do coração ditar,

em versos e prosas escrevinhar,

ser criança, romântico e se dar.


Não é água, nem Deus, nem ar,

fruto, árvore, flor e nem mar,

não é sabor, cheiro ou olhar,

a linguagem do coração.


Louco fui por acreditar,

na linguagem do coração,

ninguém quis acreditar,

que aprender é uma oração.

(C.M.)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pode Alguém Ser Quem Não É


-Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
-É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês de Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é…

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamento
ver desmoronar
um a um sonhos vãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não o é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:



Pode alguém ser quem não é?


(Sérgio Godinho)