Há sempre uma razão para viver. Podemos elevar-nos acima da nossa ignorância, podemos olhar o nosso reflexo, como o de criaturas feitas de perfeição, inteligência e talento. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!
(Richard Bach "Fernão Capelo Gaivota")

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Linguagem do Coração


Não é Braille nem gravura,

escrita, pergaminho ou cifra,

língua, escrita nem escultura,

a linguagem do coração.


Louco aquele que usou

interpretar essa linguagem

decifrar o que abandonou

em sonhos feitos miragem.


Loucura cometeu ao desafiar

o invisível do coração ditar,

em versos e prosas escrevinhar,

ser criança, romântico e se dar.


Não é água, nem Deus, nem ar,

fruto, árvore, flor e nem mar,

não é sabor, cheiro ou olhar,

a linguagem do coração.


Louco fui por acreditar,

na linguagem do coração,

ninguém quis acreditar,

que aprender é uma oração.

(C.M.)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pode Alguém Ser Quem Não É


-Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
-É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês de Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é…

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamento
ver desmoronar
um a um sonhos vãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não o é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:



Pode alguém ser quem não é?


(Sérgio Godinho)


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Portas



Há coisas conhecidas e coisas desconhecidas;

entre elas, ficam as portas.


(William Blake)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Desordem


Estive à espera do guia que viesse e me levasse pela mão

Podem os prazeres de um homem normal residir em tal sensação?

Novas sensações guiam a inocência – deixo-as para outra altura

Eu tenho o espírito, sem um sentido, calo o choque fundo


Vai sendo rápido, move-se rápido agora, está fora do alcance

Do décimo andar, escada traseira abaixo, até à terra em transe

Luzes que explodem, carros que estoiram, vai sendo constante

Eu tenho o espírito, sem um sentido, deixo ir avante


Que te diz a ti, que me diz a mim – ainda estaremos unidos

Vejo-te a ti como vejo tudo, não espero dó dos teus amigos

Quem tem certezas, e afinal, e quem se importa ou não

Até que o espírito, sensação nova, triunfe, saberás então

Até que o espírito, sensação nova, triunfe, saberás então


Eu tenho o espírito, sem um sentido



(Ian Curtis “Joy Division”)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ciclos


Ciclos, círculos e circunferências,

curtos circuitos, caminhos longos,

perdida a verdade em penitências,

verdades nas trincheiras, prolongas.


Sei o que sei e soube mais que devia,

escombros de vidas á minha frente,

ruínas de perdidos e achados na via,

passam e não voltam numa corrente.


Aperta-se o circulo à verdade,

e a verdade tu nunca a dizes,

sim sei, sei mais do que claridade,

e hoje se a disser não a escravizes.


O mundo hipnotiza a fera ferida,

a necessidade obscura do animal,

aliciante apelativa sem divida,

já não existe lugar para bom sinal.


Sim eu sei o que fizeste, em ciclos,

solares, lunares, económicos e cios,

quando rugido animal está no exilo,

quando a fome e o calor são alicio.


Vi quem não acredita na verdade,

pior que acreditar na pior mentira,

a verdade repele e a mentira atrai,

num jogo de labirintos e conspira.


E o bem e o mal giram em ciclos,

tempestades e bonanças iludidas,

e a dor e o amor que evocam asilo,

são sinais e rangeres no tempo lidas.


E eu queria quebrar o ciclo,

das palavras decentes o gelo,

descobrir um novo mundo,

no ciclo da honestidade e do belo.


E eu sei a formula mágica,

que nada é do bem e do mal,

equivocadas pelo uso sínico,

desse humano que é animal.


Mas se preferes o excesso,

num desenfreado regresso,

viver tudo num só sucesso,

na falsa consciência do progresso.


Se preferes viver correndo e apressado

tudo feito e enlatado sem dor nem amor,

talvez todos os ciclos não tenham sentido,

e esse animal que habitas é da natureza perfeita aberração.
(C.M.)

domingo, 4 de outubro de 2009

Existo!?...



Existo neste ser invisível,

num tempo que banalizou,

imagens do indescritível,

que consumindo me gastou.


Cópia imperfeita dos originais

… banais

… trais

… destruais

… e outros que tais.


O bom da vida que vejo,

amar o verde e o azul,

acariciar a brisa num cortejo,

saborear as ondas do mar a sul.


Para um umbigo um dia olhei

… lutei

… pintei

… abdiquei

… de umbigo nada veio.


Acordo mas fecho os olhos,

momentos onde não existo,

ninguém vê para lá dos olhos,

levado pelo vento não insisto.


Para ninguém escrevo poemas

… fantasias

… imaginativas

… fictícias

… de um mundo realista.


Sei que não existo,

mas amo o que existe,

amo o que insisto,

o belo do olhar que persiste.


No fogo cruzado me encontro

… de nada advém

… talvez do tempo refém

… pecados de alguém

… nada espero de ninguém.


Não existo, eu sei, talvez,

nos destroços alguém vive,

um dia nasce de cada vez,

o mundo dá ao que cultive.


(05/03/2008) (C.M.)