Há sempre uma razão para viver. Podemos elevar-nos acima da nossa ignorância, podemos olhar o nosso reflexo, como o de criaturas feitas de perfeição, inteligência e talento. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!
(Richard Bach "Fernão Capelo Gaivota")

domingo, 5 de junho de 2011

Navegar é Preciso

NAVEGAR

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

(Fernando Pessoa)

sábado, 28 de maio de 2011

Momentos

domingo, 24 de abril de 2011

Senhores do Dinheiro

Senhores do Dinheiro

Vós, Senhores do Dinheiro

Políticos, Economistas e Banqueiros que nos enganais,

Que cotações, Ratings e bolsas inventeis

Que de especulações e interesses viveis

Que em offshores e subprime roubeis

Que vos escondeis atrás de paredes

Que vos escondeis atrás de gabinetes

Quero que saibam

Que vejo através das vossas mentes

 

Vós, Senhores do Dinheiro

Que jamais fizestes outra coisa

para além de subir e descer juros

Brincais e explorais os mais humildes

Como se fossem vossas marionetas

Dais-me uma esmola para a mão

E escondei-vos do meu olhar

E desviais e fugis bem depressa

Quando rápidas vidas caiem na rua.

 

Como a velha peste

Demagogos e desonestos

Que retalhais e dividis o mundo em norte e sul

em mapas e em primeiros e terceiros mundos

Quereis que acredite

Que uma economia global pode trazer igualdade

Mas vejo para além das vossas máscaras

Como vejo através da água

Que escorre pelo cano de esgoto

 

Preparais ciclos económicos e eleições

para ganharem mais uns milhões

Depois encostáveis e apreciais em belos iates e aviões

milhares de mortes, mulheres estéreis e crianças famintas

Quando o número de famintos aumentar

escondei-vos nas vossas luxuosas mansões

enquanto sonhos destruídos e lágrimas escorrem

dos corpos de crianças e Homens honestos

e se misturam nas ruas que pisais.

 

Causastes o pior dos medos

alguma vez provocado

medo de dar filhos ao mundo

como se de moeda de troca fosse

como se de uma loja se tratasse

Por aprisionares o meu filho

ainda sem corpo e sem nome

Não mereceis a condição humana

que vossa alma transporta.

 

Tantas coisas que sei e li

ditaduras, democracias e absolutismos,

quereis que acredite em comunistas, capitalistas,

anarquistas, democracias, políticos e economistas,

podeis dizer que sou ingénuo e ignorante

mas duma coisa estou certo

embora mais ingénuo e ignorante que vós

nem Jesus ou Buda vos perdoaria

aquilo que fazeis às pessoas e ás crianças.

 

Deixei que vos pergunte

O vosso dinheiro é assim tão importante

comprar-vos-á o perdão

pensais que será possível

Creio que descobrireis

no momento da vossa morte

que nem todo o dinheiro

vos restituirá a alma

 

Espero que morrais

e que chegue depressa a vossa morte

Seguirei a vossa urna

na tarde pálida

e estarei vigilante quando vos baixarem

para o leito da morte

e ficarei sobre a vossa campa

até estar seguro da vossa morte.

(B.D./C.M.)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Muda

muda

 

Olha em volta,

o mundo muda,

um sussurro,

um minuto.

 

Muda, sim muda,

o lamento sim,

despida verdade,

brechas abertas.

 

Muda sim, o retrato,

feridas palavras,

intemporais soltas,

frágeis fronteiras.

 

Muda, sim a chave,

ténue respostas,

sombrio o olhar,

auréola baça.

 

Muda sim, para lá,

encontra sim, cheio,

existe sim, um louco,

utopia da arte existente.

 

Muda sim, muda,

passageira do tempo,

tudo é, e deixa de ser,

não é apenas pó.

 

Muda, sabes sim,

uma dor, sim muda,

um amor, sim,

uma morte, sim muda.

(C.M.)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Poema do homem só

solidao2

Sós,

Irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros não se explicam:

arrefecem.

 

Nesta envolvente solidão compacta,

que se grite ou não se grite,

nenhum dar.se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão se os braços,

dão se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este intimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.

(António Gedeão)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Senhores da Guerra


Vós, senhores da guerra
Que construis canhões
Que construis aviões da morte
Que construis grandes bombas
Que vos escondeis atrás de muros
Que vos escondeis atrás de secretárias
Quero que saibam
Que vejo através das vossas máscaras

Vós, que jamais fizestes outra coisa
Para além de construir para destruir
Brincais com o meu mundo
Como se fosse um brinquedo
Dais-me uma arma para a mão
E escondei-vos do meu olhar
E virais costas e fugis bem depressa
Quando as rápidas balas cruzam o ar

Como o velho Judas
Mentis e enganais
Quereis que acredite
Que uma guerra mundial pode ter vencedor
Mas vejo para além dos vossos olhos
E vejo para além da vossa mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo meu cano de esgoto

Preparais os gatilhos
Para que outros os puxem
Depois recostais-vos e apreciais
Quando o número de mortos aumenta
Escondeis-vos nas vossas mansões
Enquanto o sangue escorre
Dos corpos dos jovens
E se mistura com a lama

Causastes o pior medo
Alguma vez provocado
Medo de dar filhos
Ao mundo
Por ameaçardes o meu filho
Ainda sem corpo e ainda sem nome
Não mereceis o sangue
Que vos corre nas veias

Tantas coisas que sei
Falando sem licença
Podeis dizer que sou novo
Podeis dizer que sou ignorante
Mas duma coisa estou certo
Embora mais novo que vós
Nem Jesus perdoaria
Aquilo que fazeis

Deixai que vos pergunte
O vosso dinheiro é assim tão bom
Comprar-vos-á o perdão
Pensais que será possível
Creio que descobrireis
No momento da morte
Que nem todo o dinheiro
Vos restituirá a alma

Espero que morrais
E que chegue depressa a vossa morte
Seguirei a vossa urna
Na tarde pálida
E estarei vigilante quando vos baixarem
Para o leito de morte
E ficarei sobre a vossa campa
Até estar seguro da vossa morte

Bob Dylan

domingo, 7 de novembro de 2010

Corações Sentidos

Suaves e leves sentimentos
parecem ingénuos e ténues
segredos de corações sentidos
genuínas que por engano insinues.

Não são o que parecem
ignorados pelo orgulho
tímidas reveladas tecem
teimam dentro barulho.

Passam invisíveis,
encerram ternuras
carinhos impossíveis,
quadros de aventuras.

Reservados numa criança,
actos e pactos imperceptíveis,
deixam apenas uma lembrança,
palavras e sons ilegíveis.

Sentido e sensível coração,
negado e julgado pela razão,
sem idade nesta vida turbilhão,
quem negue a mais linda sedução.

São como crianças,
inocentes e livres,
escrevem poemas
e soltam olhares.

A quem os liberte
a quem os use
a quem se liberte
a quem se use.

Sentidos corações, ilhas,
sentidos corações, livres,
sentidos corações, nus,
sentido coração, o meu.

Ridículas as formulas,
palavras e momentos,
dessas pequenas células,
que batem levemente.

São luz que cega e repele,
como o fazem não sabem,
e o tempo não o congele,
no eterno tempo cabem.

E se um dia te cruzares,
por entre sentidos corações,
por entre lindas orações,
saberás tu reconhecer e abraçares?
(C.M.)