Há sempre uma razão para viver. Podemos elevar-nos acima da nossa ignorância, podemos olhar o nosso reflexo, como o de criaturas feitas de perfeição, inteligência e talento. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!
(Richard Bach "Fernão Capelo Gaivota")

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um dia vulgar...


Hoje é um dia vulgar,

mesmo que pintasse o céu,

e fizesse aviões de cera,

e voasse bem alto.


Hoje é um dia vulgar

mesmo que caminha-se no mar,

e que deixa-se de amar,

perde-se o que queria te dar.


Hoje é um dia vulgar, como tantos,

pensar na razão de amar é fortuito,

por mais que corra serei sempre um louco

aos olhos incrédulos da dor e do tempo.


Hoje é um dia vulgar, como sempre,

e sempre será esta vida em mim mortal

procuro o que não existe, porque não existo,

vulgar são as palavras por ti digeridas.


Hoje é um dia vulgar, porque o amaldiçoei,

deixar de pensar nesse amor que dizem

em vãs canções e palavras e poesias,

nunca te direi e farei o que pensas,

antes a ferida doce do mais puro do meu amor.


Hoje é um dia vulgar, porque me deitaram fora,

mesmo que eu reinventa-se o amor que sinto por ti,

mesmo que cria-se o criador num mundo que não existe,

vejo para lá do quadro onde o pintor pintou o invisível.


Hoje é um dia vulgar, sem romantismos,

sou mais um louco que a vida pariu,

feito de dramas, traumas e retomas,

alma vulgar que apenas sobrevive apática.


Hoje é um dia vulgar, vulgar como eu,

mas não sou eu quando escrevo, é o momento,

mais longe fico de ti, as palavras me tiram,

o equilíbrio a sensatez, tudo o que o amor tem para dar.


Mas nunca em vão será este dia invulgar,

nesta alma invulgar ainda reside a tranquilidade

mesmo que as tempestades sejam eternas

e à minha volta me pareça tudo perdido e louco.

Não invoquem o amor em vão


Amar é o verbo revelado
Pela boca da divindade
Só deve ser invocado
Em caso de necessidade
Esse verbo não se explica
À luz crua da razão
Ele é a jóia mais rica
Da arca da criação
Podem-no pôr no altar
Frívolo duma canção
Praticá-lo até gastar
Mas não o invoquem em vão


Não invoquem o amor em vão
Não invoquem o amor em vão


Podem-no usar com rendas
Ou enfeites de algodão
Para tapar bem as fendas
Por onde sopra a solidão
Podem dá-lo ao desbarato
Podem-no até vender
Metê-lo no guarda-fato
E dá-lo à traça a comer
Podem-no usar no chão
Como capacho dos pés
Mas não o invoquem em vão
Não o sujem com clichés


Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão
Não invoquem o amor em vão
É pecado como deitar fora o pão


(Carlos Tê / Rui Veloso)

sábado, 4 de julho de 2009

Se eu fosse perfeito...


Se eu fosse perfeito

em momentos e tempos

palavras e de nada alheio

nem se quer contratempo.


Se eu fosse perfeito

em altura e estatura

virtude sempre no meio

até mesmo em bravura.


Se eu fosse perfeito

magico e adivinho

desejado correio

e em tudo certinho.


Se eu sim, fosse tão perfeito

seria messias, deus ou anjo,

não teria qualquer defeito

nem tão pouco pecado abranjo.


Se eu sim, fosse tão perfeito,

aparecia-te no momento certo,

olhavas-me todo sem defeito

nem tão pouco seria desconcerto.


Existe um momento perfeito,

que Deus nos dá imperfeito,

de hesitação e perguntas feito,

é a felicidade com um só defeito.


Se eu fosse perfeito,

que haveria a descobrir,

nunca seria da vida eleito

nem tão pouco sorrir.


Se eu assim, fosse tão perfeito,

seria ausente e colorida a vida,

desafio e alma que se quer refeito,

que do futuro se quer desconhecida.


Existe um momento perfeito assim,

que Deus nos dá num imperfeito jardim,

invisível á primeira porque não é marfim,

é um coração imperfeito de amor sem fim.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Espírito da Terra

Chuvas, fumos e digestos

invejas, rancores e ganância

túneis, minas, buracos e restos

mentiras, traições e arrogâncias.


Desventrada alma da Terra,

desventrada alma do Homem

recursos retalhados em guerra

compaixões sem fé nem amem.


Estranha forma de humanidade,

de todos as filosofias e religiões

pensamentos, rostos e verdades

que contêm o bem e a paz no brasão.


Dizem que é maior o que as une,

do que menor os que as divide,

não sei quem assim pensa imune,

mentes perturbas são quem decide.


Estranha forma pró primitiva,

de uma fé adulterada e traída,

económica e politica negativa,

tudo numa elite menor absorvida.


Estranha forma de fé e crença,

do homem bomba á fábrica bélica,

de que com a guerra cria-se a paz

apenas uma desculpa para ganância.


Esventra-se a Terra mãe,

florestas, jardins e águas,

carvão, gás, negro ouro,

até ao fim nuas e cruas.


Esventra-se o Homem,

em risos sarcásticos,

sentimentos e emoções,

criança e mulher oprimem,

enquanto cantam orações.


Do sensível ao frágil, e o belo,

até na dor e no êxito se inveja,

semeia-se a infelicidade sem elo,

ditas vozes amigas que se maneja.


Se invejas o mesmo bem,

ao teu inimigo de olhado,

e ao teu amigo te convém,

hipócrita és de face mascarado.


Esventramos a terra do fruto,

o espiritual sagrado e divino,

terra e espírito és neste reduto,

és tu Homem o melhor assassino.


De nada te serve prolongares,

a inevitável degradação da carne,

se não semeares novos ares e lares,

se não plantares sementes e lugares.


De nada te serve a ostentação,

se não interromperes a desertificação,

se não partilhares com compaixão,

e estenderes a humanidade a tua mão.